Reza a lenda que, no começo da década de 1960, o físico Charles H. Townes, um dos pioneiros no trabalho com lasers, teria dito que o “laser é uma solução em busca de um problema”.

Hoje, é claro, o laser faz parte de nossas vidas e é uma solução para diversos problemas: desde a indústria do entretenimento (músicas e filmes armazenados em CDs e DVDs, e lidos com laser), instrumentos cirúrgicos (bisturis a laser), odontológicos (utilizados para acelerar o processo de solidificação de resinas), transmissão de dados em fibras ópticas, medições científicas como, por exemplo, determinar a distância exata entre a Terra e a Lua (que é de 384.400 km).

O começo do século XXI também testemunhou o surgimento de uma tecnologia que traz promessas revolucionárias não apenas do ponto de vista tecnológico, mas também financeiro, social e pessoal. Estamos falando da blockchain. Seria ela, também, uma solução em busca de um problema?

É o que vamos discutir agora.

O que é uma blockchain?

Do ponto de vista computacional, uma blockchain nada mais é do que um banco de dados distribuído (isto é, presente e replicado em diversos computadores ao mesmo tempo) que é, por definição, inviolável (isto é, os dados não podem ser alterados sob hipótese nenhuma) e que mantém um registro histórico de todas as transações. Seu principal e mais comum propósito é estabelecer protocolos de confiança entre duas partes, evitando intermediários.

Essa é, basicamente, a premissa que norteou a criação da mais famosa aplicação de uma blockchain surgida em 2009: a moeda virtual conhecida como bitcoin.

Logo, porém, ficou claro que a estrutura básica de uma blockchain poderia ser utilizada para quaisquer classes de problemas que envolvessem privacidade, imutabilidade de dados, registro histórico de dados, requisições simultâneas e auditoria.

Alguns exemplos surgem naturalmente: registro de escrituras, histórico médico, transações financeiras, rastreamento de bens ao longo de uma cadeia logística, aluguel ou disponibilização de bens (aluguel de apartamentos ou download de músicas) etc. A blockchain garante, por seu próprio modelo, a confiabilidade da transação entre as partes (humanas ou não): uma vez tendo sido validada (por meio de algoritmos de consenso), uma cópia da transação fica disponível em cada um dos computadores que fazem parte da rede e esse bloco jamais poderá ser alterado, permitindo que outras partes consultem e auditem essa transação sem ter, contudo, acesso ao conteúdo gravado no bloco. Ou seja, estamos falando de um processo transparente e, ao mesmo tempo, garantindo a privacidade dos dados transacionados.

Parece um bom negócio, não?

Problemas à vista

Vamos analisar uma ação das mais corriqueiras em nossas vidas hoje: fazer uma compra pelo cartão de crédito. Aparentemente, tudo que acontece é escolher um produto (ou selecionar em um site), inserir o cartão na maquininha (ou digitar o número dele no site), confirmar sua senha e pronto! Compra efetuada. Na verdade, o processo é muito mais complicado e envolve uma série de passos intermediários entre você e a loja onde está comprando. E, em cada um desses passos intermediários (que envolvem bancos, operadoras de cartão, empresas de infraestrutura etc.), você está sendo cobrado por uma porcentagem do valor total da sua compra. É o preço que se paga pela existência de intermediários.

Como deve ter ficado claro na discussão acima, a blockchain pode simplesmente eliminar os intermediários e ligar as duas pontas extremas e principais da transação. No nosso exemplo, você e a loja onde fez a compra (daí o apelo das moedas virtuais).

Um outro exemplo: a solicitação de exames médicos. É extremamente comum que hoje em dia, ao darmos entrada em um hospital (digamos, consultando um gastroenterologista), a consulta não dure nem cinco minutos e saiamos de lá com uma lista de pedidos para diversos exames. Algumas semanas depois, podemos ir a uma outra especialidade (digamos, um pneumologista) dentro da mesma rede e saiamos de lá com uma lista igualmente longa de exames. Alguns desses (por exemplo, um hemograma) poderá já ter sido pedido pelo especialista anterior. E se tivéssemos uma maneira de armazenar todos os nossos exames médicos, ao longo da vida, e tivéssemos controle sobre para quem e quando apresentá-los? No caso que estamos discutindo aqui, um hemograma recente poderia ser apresentado ao segundo especialista, economizando tempo, produtos clínicos e recursos humanos. Pois bem, mais uma vez, a resposta pode estar em uma blockchain.

O que esses dois casos têm em comum?

O fato de que estamos lidando com dados que crescem ao longo do tempo (diversas compras, diversos exames médicos) e que necessitam de segurança e privacidade. Além disso, estamos falando, também, em mantê-los sob nosso controle (ao invés de ficaram espalhados e armazenados em diversos servidores, e serem acessados por mecanismos de busca ou redes sociais).

A blockchain promove uma radical mudança no paradigma de transporte, disponibilização e administração de dados e valores.

Se temos uma ferramenta com essa capacidade em mãos, por que ela não é mais difundida e utilizada?

O desafio do novo

Em primeiro lugar, a tecnologia é muito nova e ainda associada demais às criptomoedas (sendo que a mais famosa é a bitcoin). Casos recentes de fraudes e esquemas de pirâmide financeira envolvendo criptomoedas fazem um desserviço à blockchain. A desconfiança e o medo de novas tecnologias é, portanto, o primeiro desafio a ser vencido.

Em segundo lugar, podemos apontar para o impacto nos negócios que podem ser causados pela adoção de uma blockchain em escala local ou mais ampla: se os bancos, por exemplo, puderem transacionar entre si sem a necessidade de passar por um banco central, quais as implicações disso para o mercado financeiro? Sabemos que as transações seriam confiáveis e auditáveis – portanto sujeitas à validação ou regulamentação, mas sem a intervenção de um órgão central (seria finalmente a materialização da mão invisível postulada por Adam Smith?). Mudar estruturas e redes de comunicação que existem há séculos não é tarefa fácil ou rápida. A adoção de novos paradigmas (repito: não apenas tecnológicos, neste caso) é causada ou por momentos de crise ou por tecnologias disruptivas. A blockchain pode trazer ambos cenários – e ignorá-la pode configurar um grande engano.

Um outro desafio é o questionamento feito por especialistas a respeito do custo computacional exigido para a criação de novos blocos (registros) dentro de uma blockchain ou o problema do armazenamento exponencial de dados (pense em quantos exames médicos ou compras com cartão você fez ou fará ao longo de toda sua vida e o tamanho do banco de dados necessário para armazenar tudo isso. Agora, multiplique por 8 bilhões de pessoas). Esses são questionamentos legítimos. No caso da bitcoin, seu valor monetário deriva diretamente do esforço computacional (o famoso “consenso”), necessário para que a rede valide e aceite a geração de uma nova bitcoin.

Na área de Saúde, por exemplo, foi criado e implantado um protocolo conhecido como HL7, cujo principal objetivo era a transferência e administração de dados clínicos entre hospitais, planos de saúde e clínicas. Uma das principais críticas e deficiência do modelo foi a questão do manuseio da gigantesca massa de dados gerada.

Parece, então, que a blockchain já nasce com uma herança de problemas que não foram solucionados anteriormente.

O que pode ser feito?

Blockchains: a evolução do modelo

O artigo que definiu o que é uma blockchain e sua posterior utilização em criptomoedas é de 2009. De lá para cá, novas tecnologias surgiram, o poder de processamento dos computadores aumentou e novas pessoas começaram a pensar sobre blockchains. Consequentemente, o modelo inicial proposto em 2009 foi alterado, expandido e adaptado.

Plataformas públicas (como, por exemplo, a Ethereum e a Azure da Microsoft) surgiram, permitindo a construção de aplicações baseadas em blockchain sem a necessidade de se programar uma a partir do zero. Logo, novas tecnologias foram desenvolvidas, trazendo mais facilidades ao mercado e desenvolvedores de soluções. Merecem destaque:

  • Smart contracts: são protocolos computacionais, garantindo a execução de determinadas ações como, por exemplo, a leitura dos seus exames por um determinando médico em um período de tempo preestabelecido;
  • Hyperledger: é uma espécie de “sistema operacional” cujo principal objetivo é garantir a comunicação entre diversos tipos de indústrias, com alto nível de transparência e performance;
  • Parity: permite o desenvolvimento rápido de aplicações baseadas em blockchain, focado em segurança e alta disponibilidade.

Uma nova categoria de banco de dados (Cosmos DB da Microsoft), planejado para lidar com “dados em escala planetária”, pode ser facilmente acoplado a uma blockchain, tratando de forma eficiente o crescimento exponencial dos dados. Utilizando-se bancos de dados com essa abordagem, o problema apontado no caso do HL7 pode ser endereçado e resolvido – com o ganho extra de imutabilidade dos dados providos pela blockchain.

Juntas, todas essas tecnologias e avanços, permitem que os problemas citados acima possam ser tratados de forma eficiente. Ao prover mecanismos computacionais que entregam e garantem segurança de dados, e estabelecem confiança entre partes, que a princípio não se conhecem, a blockchain vai sendo vista como uma tecnologia madura e confiável. Além disso, combinações tais como Ethereum + Parity + Hyperledger permitem que mais pessoas acessem, testem e coloquem em prática aplicações baseadas em blockchain, disseminando sua adoção, de modo a desassociar a ideia de que sua única aplicação reside em criptomoedas.

A questão do custo computacional também está diretamente ligada ao modelo proposto para a bitcoin. Para que um novo bloco (bitcoin) seja adicionado à rede, milhares de horas de computação são necessárias para a realizar a descriptografia associada àquela nova unidade (basicamente isso é chamado de “mineração”) e para a realizar o consenso (isto é, ser validado por todos os computadores da rede). Esse modelo pode e já foi evoluído para outras arquiteturas, em que o consenso não exige tamanho investimento e pode ser alcançado em questão de micro ou milissegundos. A bitcoin opera no que chamamos de uma “rede pública”, ou seja, qualquer computador no mundo pode fazer parte da rede, oferecer seu poder computacional para minerar uma bitcoin (e, claro, ser recompensado monetariamente por isso). No outro extremo, é possível que uma instituição rode uma blockchain inteiramente dentro de sua rede privada determinando ela mesma as regras para o consenso. Redes com essa arquitetura são muito mais rápidas e exigem muito menos poder computacional do que a mineração de uma bitcoin. De novo, tecnologias como o Hyperledger são auxiliares poderosos no desenvolvimento, uma vez que são projetadas para fornecer velocidade e estabelecer confiança entre as partes de uma rede.

Merece destaque, ainda, o fato de que essas plataformas permitem que APIs sejam escritas na maioria das linguagens computacionais usadas no mercado (tais como .NET ou Python), permitindo que equipes e empresas comecem a desenvolver soluções sem a necessidade de investir em treinamento em novas linguagens.

O desafio de “libertar” a blockchain de sua associação única e exclusiva com as criptomoedas é o grande fator para sua popularização e aceitação pelo mercado. Quanto mais aplicações comercias bem-sucedidas forem apresentadas utilizando blockchain, mais fácil será realizar a mudança de paradigma que apontamos acima.

Uma vez que a blockchain é uma tecnologia meio e não fim, ela pode ser largamente adaptada e embutida em novas tecnologias ou trabalhar em parceria com aquelas já existentes. É possível, portanto, “evoluir” uma blockchain para que atenda a necessidades específicas e contornar problemas de sua arquitetura.

Olhando para o futuro. E o presente.

A tecnologia blockchain é muito nova. Não se sabe ainda com certeza o conjunto completo de classes de problemas que podem ser tratadas por ela e de vantagens únicas de negócio que podem ser aferidas com sua utilização.

Mas nós estamos pesquisando e buscando. Novas ideias e aplicações surgem todos os dias. Nesse exato momento, existem aplicações pioneiras rodando no Brasil e no mundo na área cartorária (registro de propriedade), no acesso à música e, até mesmo, em aplicativos de namoro!

Assim como no caso do laser, temos uma poderosa ferramenta nas mãos. Quais soluções nos aguardam um pouco mais à frente?