Os assistentes digitais estão, aos poucos, ganhando espaço em nossas vidas. Alguns conhecemos pelos nomes, como Siri, Alexa e Cortana. Outros, apenas respondem aos nossos chamados, como “OK, Google”. O que traz desconfiança e fascínio é, em grande parte, o meio de comunicação que usamos para entrar em contato com eles, justamente por ser o mesmo que usamos com outras pessoas: nossa voz. A capacidade de conversar é impressionante e o que está além dessa “interface” talvez seja ainda mais, pois não temos ciência de como tudo funciona e essa tecnologia deve evoluir mais e mais.

A relação do ser humano com instrumentos é especial, pois o uso deles permitiu superar obstáculos que seriam impossíveis apenas com o seu frágil e limitado corpo. A habilidade de se comunicar uns com os outros pela fala e sinais foi outro fator que contribuiu para criar seu mundo próprio, distante e protegido da natureza selvagem. Unir um instrumento à capacidade de entender uma linguagem não é mais um assunto distante para conversas de filosofia, é um casamento que pode potencializar ainda mais a relação do ser humano com aquilo que o diferenciou dos demais animais: ferramentas e linguagens em suas mais diversas expressões.

Ao comparar a inteligência entre uma pessoa e uma máquina, não é raro atribuir o conhecimento tácito como exclusividade do ser humano, afinal, ele amadurece com as experiências adquiridas ao longo da vida, se tornando personalizado, intuitivo e subjetivo. O conhecimento explícito é o outro lado da moeda, podendo ser formalizado racionalmente, definido por regras e armazenado em uma base de dados [tipos], sendo possível transferir este tipo de conhecimento para linguagens de programação em forma de algoritmos e estrutura de dados. Mas, não são alguns tipos de aprendizado de máquina uma forma de produzir conhecimento tácito, uma vez que, ao aprender a solucionar algum problema, essa solução pode não ter explicação formal de como se chegar até ela [quora]?

Para que uma máquina transforme a nossa linguagem em informações e faça com que um assistente responda a um comando de voz, é necessário que exista um processamento dessa linguagem [nlp]. Existem muitos desafios para que esse processamento ocorra e o potencial para aplicações vai além do assistente presente em nosso smartphone. A linguagem natural carrega uma infinidade de informações e, embora o ser humano seja mestre em manipular palavras, existe um limite de informações que até a pessoa mais inteligente do mundo consegue absorver. Além do tempo para que esse conhecimento faça sentido.

Uma máquina, por outro lado, apesar de todo o seu potencial em calcular e armazenar, precisa de instruções para lidar com os dados que são fornecidos a ela. Ensinar uma máquina construída para realizar operações lógicas a extrair informações mapeadas em palavras é uma das várias abordagens da Inteligência Artificial [ai]. Mas, assim como nosso conhecimento tácito, o que elas aprendem gera uma resposta, mas não necessariamente explicam como chegar até ela.

Conforme a tecnologia vai sendo utilizada, as possibilidades para o seu aprimoramento estão sendo trilhadas. Ao capturar microexpressões faciais, por exemplo, é possível encontrar detalhes que indiquem quando uma pessoa está mentindo [lie]. O processamento de linguagens pode contribuir para checar os fatos [lie-nlp] e identificar contradições ou ambiguidades em alguma declaração ou depoimento, servindo como instrumento que pode capturar detalhes que possam passar despercebidos à primeira vista. Existem diversas possibilidades de interpretar uma sentença, assim como existem diferentes sentenças que expressam uma mesma ideia [te] e a tecnologia pode complementar a inteligência do ser humano para encontrar diferentes caminhos.

Segundo o terceiro artigo da lei de introdução às normas do direito brasileiro, ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece [lei], porém, com a quantidade de leis e jurisprudências existentes, torna-se difícil acompanhar e conhecer todo o conteúdo legislativo. Se bem utilizada, a tecnologia poderia oferecer respostas sobre consultas em áreas jurídicas, auxiliar a leitura de processos e trazer referências. A Thomson Reuters, por exemplo, traz a Inteligência Artificial para área jurídica [tr]. A tecnologia também já consegue detectar o câncer de pele melhor que alguns dermatologistas [pele] e ajudar a NASA a encontrar planetas [nasa].

O questionamento ético sozinho não impede que a tecnologia avance e a sociedade deve se perguntar qual o impacto da Inteligência Artificial. Dentre as grandes dúvidas estão: Qual é o preço a se pagar por essa tecnologia? Como ela pode se voltar contra nós mesmos? Qual a moeda e o que ganhamos em troca? Quanto isso envolve nossa privacidade, nosso conforto e o nosso emprego? Além das questões sociais sobre nossa função na sociedade e o papel das máquinas. Apesar de muitas incertezas, as pesquisas e os investimentos continuam.

Num futuro distante, podemos imaginar que os computadores serão capazes de resumir um filme, um seriado e analisar a trilha sonora e as imagens para dizer se eles serão bons ou fracassos de bilheteria. Poderemos utilizar o processamento de linguagens para extrair informações dos diálogos, redes neurais para analisar os efeitos especiais, processamento de sinais digitais para averiguar a qualidade do som, reunir toda essa informação e cruzar com dados estatísticos e dar a probabilidade de sucesso e uma estimativa do lucro. Apesar de os prognósticos serem excelentes, a realidade pode ser completamente diferente, pois nada muda a natureza incerta do ser humano.

As interfaces utilizadas para extrair o melhor da tecnologia estarão sempre se ajustando às realidades e necessidades do ser humano. Ainda existe uma certa desconexão entre todas essas interfaces, teclados, monitores, ambientes de realidade virtual, smartphones, tablets, drones e Internet of Things. Em geral, cada uma dessas ferramentas cumpre um papel específico. A combinação de computadores com a linguagem abre muitas oportunidades para pesquisas, desenvolvimento e inovação, pois quem dominar essa tecnologia estará dominando aquilo que tornou o ser humano tão diferente e único e, que não apenas transformou o mundo, mas criou um mundo novo para si.

Bibliografia

[nlp] https://en.wikipedia.org/wiki/Natural-language_processing

[ai] https://en.wikipedia.org/wiki/Artificial_intelligence

[lie] http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-5197747/AI-detects-expressions-tell-people-lie-court.html

[lie-nlp] https://www.slashgear.com/mit-grad-student-develops-internet-lie-detector-using-natural-language-processing-22197496/

[te] https://en.wikipedia.org/wiki/Textual_entailment

[pele] https://www.cbsnews.com/news/ai-better-than-dermatologists-at-detecting-skin-cancer-study-finds/

[nasa] https://www.nasa.gov/press-release/artificial-intelligence-nasa-data-used-to-discover-eighth-planet-circling-distant-star

[lei] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm

[tr] https://legalsolutions.thomsonreuters.com/law-products/artificial-intelligence

[tipos] http://www.administradores.com.br/artigos/academico/os-tipos-de-conhecimento-explicito-e-tacito/99280/

[quora] https://www.quora.com/Can-artificial-intelligence-generate-tacit-knowledge