Censo Agropecuário

Com a divulgação no final de outubro de 2019 do censo agropecuário nacional, que apresenta os resultados definitivos de 2017, é possível mapear e entender o comportamento do “Brasil Agrário”, um setor que convive com a revolução tecnológica desde sempre, e é foco hoje de um grande número de startups e empresas de tecnologia. 

A análise do censo é complexa e especialistas já apontam que alguns aspectos não podem ser vistos como fenômenos, mas sim como frutos da alteração da metodologia utilizada. Não pretendemos neste artigo avaliar esses pontos. No entanto, é preciso ressaltar que nenhuma outra entidade, que não seja o governo federal, seria capaz de levantar esses dados, seja pelo tamanho da operação ou pela receptividade do setor a outras entidades que não fossem o próprio governo. 

A evolução do setor

Ao olharmos o mundo agro com viés de especialistas em “tech”, enfrentamos o risco de abreviarmos a evolução ocorrida na área até o momento, que caminhou muito no curto prazo do ponto de vista agronômico, seja por meio da substituição de soluções químicas por biológicas, ou na maior variedade de sementes adaptadas à disposição. 

Para uma análise mais sólida devemos questionar: em que ponto do ciclo de evolução tecnológica o produtor tem acesso às novas tecnologias? Quais delas se traduzem em maior retorno para toda a cadeia de valor do agronegócio? Para nos ajudar nessas questões vamos olhar alguns dados do censo.

Qual negócio e qual produtor?

Primeiro é necessário entender de qual negócio e de qual produtor estamos falando, em um contexto continental como o do Brasil. O censo mostra que 1% dos estabelecimentos utilizam 48% das áreas. A outra metade está com produtores considerados médios (10 a 1000 ha), sendo 18% com áreas de 10-100 ha e 32% com áreas de 100-1000 ha. A maioria destas áreas é de pastagem, e as lavouras temporárias são, na maior parte, de soja e de milho:

Censo Agropecuário

O valor de produção indica que as áreas de maior faturamento, apesar de menor em número quando comparadas às pastagens, são as de lavouras temporárias, que tem soja e milho como as culturas mais representativas:

Censo Agropecuário
Em conversas com produtores e agrônomos sempre tocamos no desafio de redução do custo de produção e como o “tech” pode facilitar esse processo. O censo aponta que a utilização de tecnologia no setor não é somente discurso, mas sim uma prática de gestão, mostrando redução das despesas nos três maiores custos (salários, adubos e agrotóxicos) em uma composição de despesas. 

Não analisamos se esses itens tiveram maior custo agregado durante o período e qual foi o impacto da inflação em cada item, pois em 10 anos é possível que muito tenha sido reconfigurado. De qualquer maneira, a direção de redução parece fazer sentido:

Censo Agropecuário
O que é tecnologia no campo?

Com os produtores e os tipos de negócio mapeados de forma sintética, caminhamos para biologia, química, mecânica e finalmente “tech”, que compõe as tecnologias aplicadas no campo. Tod  as essas tecnologias estão em processo de evolução para impactar positivamente a atividade agropecuária.

A alta aplicação de soluções biológicas é, em alguns casos, a única saída para manter patamares de produtividade da lavoura; por outro lado a evolução de tratores, implementos e máquinas têm um rápido retorno de investimento dependendo da escala e do nível de maturidade dos processos de produção. Para uns basta uma semente melhor, para outros “tech” é o que falta para melhoria nos resultados de produção.

No exemplo dos tratores, o aumento mais gradativo da frota de tratores de menor potência (menos de 100 cv), quando comparado aos de maior potência (mais de 100 cv) pode apontar para o acesso inicial desses tratores por pequenos produtores ou até aumento da frota pelos médios, apontando possivelmente para um maior investimento em ganho de escala.

Censo Agropecuário

Complexidade do Negócio e Riscos

A experiência do ELDORADO no mercado até o momento aponta que a dinâmica deste setor não permite grandes investimentos em soluções de maior risco ou de baixa maturidade tecnológica (Technology Readiness Level [1]).

Aqui, a “tech” tem que funcionar no dia de campo, uma vez que as incertezas estão presentes em toda parte e, portanto, aceitar maior grau de risco com tecnologias em fases muito iniciais não é algo comum no setor, que já lida com riscos de variação de clima e tempo, incertezas políticas (tributação e regulação) e variações de mercado (incluindo o internacional).

Como o ELDORADO atua no setor?

O ELDORADO vive de maneira intensa a aplicação de seu know-how tecnológico em dores do agronegócio, e tem buscado, sempre por meio de parcerias com representantes das áreas, aplicar a inovação tecnológica para atender aos produtores que estão “gritando para serem atendidos” (“If the customer doesn’t scream, you don’t have product-market fit” – Andy Rachleff).

Parte das experiências do ELDORADO no campo estão concentradas no desenvolvimento tecnológico de componentes de implementos e máquinas, plataformas de gestão agronômica, dispositivos para testes rápidos em campo, soluções de telemetria (IoT) e aplicativos de celular com visão computacional embarcada, com foco em auxílio à coleta de dados (scouting). A atuação do instituto nessas parcerias se concentra na missão de ser braço de pesquisa e desenvolvimento (P&D), fazendo papel de área ou setor de P&D dos parceiros, que muitas vezes não têm “tech” como seu negócio, mas precisam ter acesso precoce às tecnologias em início de ciclo, sem os riscos naturais que acompanham as fases iniciais.

Nos próximos artigos desta série pretendemos abordar mais aspectos tecnológicos no agronegócio, incluindo a necessidade de customização de soluções para servirem de alavanca de produtividade, seus pontos de atenção e onde estão as dores dos produtores quando as soluções tecnológicas se tornam chave para crescimento e manutenção do negócio.

Notas: 
[1] Technology Readiness Level (TRL): Escala criada pela NASA e complementada por outros órgãos para aferir o grau de “prontidão” ou maturidade técnica de uma tecnologia, partindo de pesquisas iniciais com princípios básicos observados (nível 1), passando por protótipos em ambientes de laboratório (nível 4), demonstração de protótipo funcional em campo (nível 7) e finalmente como um produto em mercado (nível 9), o que a NASA considera como “flight proven”.