A governança de dados nas organizações (Parte 2) - Instituto Eldorado
16 de Outubro de 2026

A governança de dados nas organizações (Parte 2)

Eberth Felipe

Eberth Felipe Castro da Cruz

Autor
Eberth Felipe

Jessica Caroline Dias Nascimento

Autor
Eberth Felipe

Karina Tavares de Oliveira

Autor
Eberth Felipe

Lourenço Lima

Autor
Eberth Felipe

Marcelo Silva Pereira

Autor

Dos dados pessoais aos dados corporativos

No artigo anterior, Governança de Dados no nosso dia a dia, vimos como a governança aparece em situações comuns: uma compra entregue no endereço certo, uma transação reconhecida com segurança ou um aplicativo funcionando como esperado. Nas empresas, o desafio é parecido, mas em escala muito maior. Você já parou para pensar em quantas informações circulam todos os dias sobre clientes, fornecedores, colaboradores, produtos, contratos, vendas, pagamentos e resultados?

Mas armazenar dados não basta. Para gerar valor, eles precisam estar corretos, atualizados, organizados e protegidos. Informações confusas ou inconsistentes geram erros, retrabalho e decisões equivocadas. É aí que a governança de dados entra: ela cria regras e processos para transformar dados em informações confiáveis para o negócio.

Por que a governança ganhou força?

A preocupação com os dados cresceu junto com a evolução da tecnologia. Em 1990, organizar informações de forma estruturada exigia muito investimento e esforço, e como os dados eram usados principalmente para relatórios, a governança nem sempre recebia prioridade. Com a popularização da internet e dos serviços digitais nos anos 2000, esse cenário mudou rapidamente. As empresas passaram a gerar e armazenar um volume cada vez maior de informações, tornando necessário criar regras para organizá-las, protegê-las e controlar seu acesso.

Esse movimento foi impulsionado por organizações como a DAMA International e o Data Governance Institute, que ajudaram a reunir boas práticas e referências para a gestão de dados. Entre elas está o DAMA-DMBOK, guia que consolida uma linguagem comum para diferentes áreas da gestão de dados.

Quanto mais as empresas passaram a depender dos dados, mais importante se tornou sua governança. Afinal, assim como dinheiro, máquinas ou imóveis, as informações também são ativos valiosos. É por meio delas que as organizações entendem seus clientes, acompanham resultados, identificam oportunidades e planejam o futuro.

A governança de dados nas organizações (Parte 2)

Quando proteger dados deixou de ser opcional

O crescimento da quantidade de dados também aumentou a preocupação com a privacidade. Para lidar com esse desafio, surgiram leis como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), na União Europeia, e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), no Brasil. Em comum, essas legislações estabelecem regras sobre como organizações podem coletar, utilizar, armazenar e compartilhar informações pessoais, além de ampliar o controle das pessoas sobre seus próprios dados.

Na prática, proteger dados deixou de ser apenas uma recomendação ou uma responsabilidade da área de tecnologia. As organizações precisam saber por que coletam determinadas informações, como elas são utilizadas, com quem são compartilhadas e quais medidas são adotadas para protegê-las. Afinal, mesmo quando ocorre uma falha em sistemas ou processos, a responsabilidade pelo tratamento desses dados continua sendo da organização.

A governança de dados nas organizações (Parte 2)

O primeiro sinal do caos é a desorganização

Antes de um grande problema aparecer, muitas empresas já demonstram sinais de que seus dados estão desorganizados. Um exemplo simples: a diretoria pergunta quantos clientes ativos a empresa possui e cada área apresenta um número diferente. Isso nem sempre acontece porque alguém está errado, mas porque cada equipe pode usar uma definição diferente do que considera um cliente ativo.

É justamente aí que entra a governança de dados. Ela ajuda a criar uma linguagem comum para toda a organização, definindo conceitos, regras e fontes oficiais de informação. Assim, todos passam a trabalhar com os mesmos critérios, evitando dúvidas, retrabalho e interpretações diferentes sobre os mesmos dados.

O segundo sinal do caos são as decisões erradas

Outro sinal aparece quando uma empresa decide abrir uma nova loja em uma região onde acredita ter muitos clientes. O investimento é feito, a operação começa, mas o movimento fica abaixo do esperado. Depois, descobre-se que os dados usados na análise estavam desatualizados, duplicados ou incompletos. A decisão não falhou por falta de tecnologia, mas porque as informações utilizadas não refletiam a realidade.

Na prática, decisões orientadas por dados só funcionam bem quando os dados são confiáveis. Um único endereço incorreto pode causar uma entrega perdida, mas milhares deles podem levar a decisões estratégicas equivocadas. É nesse momento que a governança de dados faz a diferença: ela ajuda a garantir que as informações utilizadas sejam precisas, consistentes e adequadas para apoiar escolhas importantes, reduzindo riscos e aumentando a confiança nas decisões.

O terceiro sinal do caos são os incidentes públicos

Alguns problemas causados por dados mal gerenciados ficam dentro da empresa, gerando atrasos, retrabalho e dificuldades no dia a dia. Mas quando informações incorretas chegam aos clientes ou dados pessoais são expostos, o impacto ultrapassa os limites da organização e passa a afetar consumidores, parceiros, autoridades e a reputação da marca.

Agora uma pergunta importante: a empresa sabe explicar quais dados possui, como os utiliza e quem é responsável por protegê-los? Se essas respostas não existem antes de um incidente, dificilmente serão encontradas com tranquilidade durante uma crise. Afinal, recuperar a confiança das pessoas costuma ser muito mais difícil do que corrigir o problema que a causou.

O preço da falta de governança

Casos reais mostram como a governança de dados vai muito além da tecnologia. Em 2026, o iFood confirmou que um incidente ocorrido no final do ano anterior expôs nomes e CPFs de cerca de 1,2 milhão de usuários, sem comprometer senhas ou dados financeiros. A empresa optou por não comunicar o caso à Autoridade Nacional de Proteção de Dados, por considerar que ele não representava risco relevante aos usuários — avaliação questionada pela própria ANPD, que afirmou não ter recebido notificação. O episódio mostra que até decidir o que é “risco relevante” já é uma questão de governança. (Fontes: G1 e CryptoID).

Outro exemplo envolveu a Meta, que recebeu uma multa de 1,2 bilhão de euros por questões relacionadas à transferência de dados de usuários europeus para os Estados Unidos. O caso demonstrou que a responsabilidade sobre os dados não termina dentro da empresa: é preciso entender por onde as informações circulam e quais regras se aplicam em cada etapa. (Fonte: European Data Protection Board).

Há também situações que parecem simples, mas geram consequências reais. Um cliente da Air Canada recebeu de um chatbot uma informação incorreta sobre uma tarifa especial. Quando tentou utilizar o benefício, a empresa negou o pedido, e o caso acabou em um tribunal. A decisão responsabilizou a companhia pela informação divulgada em seu próprio site. (Fonte: McCarthy Tétrault).

Apesar de envolverem tecnologias diferentes, todos esses casos deixam a mesma lição: os maiores problemas nem sempre surgem por falhas tecnológicas, mas pela falta de processos, controles e responsabilidades claras. Em outras palavras, pela falta de governança sobre os dados e informações que chegam às pessoas.

A governança de dados nas organizações (Parte 2)

Governança como vantagem competitiva

Pense em uma empresa em que todas as áreas trabalham com informações confiáveis e usam os mesmos conceitos. As equipes gastam menos tempo corrigindo inconsistências ou discutindo qual relatório está correto. Na prática, uma boa governança de dados pode trazer:

  • relatórios mais confiáveis;
  • menos retrabalho entre áreas;
  • decisões apoiadas em informações mais claras;
  • mais produtividade;
  • maior proteção de dados;
  • mais segurança para inovar.

Governança não significa concentrar o controle das informações em poucas pessoas. Significa estabelecer regras claras para que todos saibam quais dados podem utilizar, onde encontrá-los e quais cuidados devem adotar ao usá-los.

A governança de dados nas organizações (Parte 2)

Considerações finais

Governança de dados não serve apenas para evitar problemas. Ela também ajuda você e sua organização a aproveitarem melhor as informações, identificar oportunidades e tomar decisões com mais confiança. Quando os dados são organizados e confiáveis, as equipes passam menos tempo validando números e mais tempo gerando resultados.

Também é importante desfazer uma impressão comum: governança não significa burocracia. Pense em uma faixa de pedestres. Ela não existe para impedir a travessia, mas para torná-la mais segura e previsível. Com os dados acontece o mesmo. Regras claras ajudam as informações a circularem com mais segurança, qualidade e utilidade.

No fim das contas, a governança existe para garantir que as informações certas estejam disponíveis para as pessoas certas, no momento certo. E para você, leitor, fica a pergunta: como transformar esses princípios em hábitos e decisões do dia a dia? É justamente isso que vamos explorar na Parte 3 desta série.

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